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Scheidt tenta façanha no Rio de Janeiro


    (03/07/07)  

O velejador Robert Scheidt pode se tornar em julho, no Rio de Janeiro, o primeiro atleta brasileiro tetracampeão pan-americano de uma mesma prova. Campeão em Mar del Plata/95, Winnipeg/99 e Santo Domingo/2003, sempre na classe Laser, Scheidt garantiu vaga no Pan do Rio mesmo após ter privilegiado nos últimos 18 meses a classe Star. Aliás, o bicampeão olímpico e oito vezes campeão mundial de Laser está em Cascais, Portugal, para a disputa do Mundial da Federação Internacional de Vela (Isaf), na classe Star, ao lado do proeiro Bruno Prada, de 3 a 9 de julho. Ele deverá chegar ao Rio de Janeiro no dia 14 e compete de 22 a 28.

A vaga no Pan foi conquistada em fevereiro, também no Rio de Janeiro, onde Scheidt conquistou o título do Pré-Pan, única das sete competições que o velejador disputou na classe Laser na temporada. Nos três títulos pan-americanos conquistados anteriormente, Scheidt perdeu apenas duas das 33 regatas disputadas. Em 25 anos de carreira, esse paulistano de 34 anos acumula 135 títulos, sendo 103 só na Laser e 17 na Star, além de 15 em outras classes.

Nessa entrevista, Scheidt relembra o início de carreira, as edições anteriores do Pan e a transição da classe Laser para a Star, que começou pra valer no final de 2005. O supercampeão fala ainda dos adversários no Pan e das chances de figurar no lugar mais alto do pódio no Rio de Janeiro.

Quais são as expectativas de medalhas para o Pan deste ano?
Scheidt: Voltar à classe Laser depois de mais de um ano me dedicando ao barco Star tem um gostinho especial, muito bom. Acho que consegui recuperar uns 60%, 70% da minha forma. Também acho que não dá para voltar aos 100%, e por isso mesmo estou me preparando para uma disputa muito acirrada por medalhas. Sou tricampeão pan-americano e tenho a pretensão de me tornar o primeiro brasileiro a ser tetra.

O Pan do Rio é diferente dos outros que você disputou?
Scheidt: Gosto bastante dos Jogos Pan-Americanos. Foi uma das primeiras competições de nível internacional que eu conquistei, em 1995, na Argentina. Desta vez, no Brasil e na minha despedida da classe Laser, será especial. Sempre sonhei com um Pan ou uma Olimpíada no Brasil e agora vou tentar coroar o sonho com a medalha de ouro.

Como está conciliando as disputas de Star com os treinos para o Pan?
Scheidt: Sempre disse que o ideal seria a inclusão da classe Star no programa oficial do Pan. Como isso não aconteceu, tive de fazer um calendário conciliando as duas classes. Treinei de Laser no Rio antes do Pré-Pan, para recuperar o contato com o barco. Depois de conquistar a vaga disputei algumas competições de Star na Europa, mas sempre que estava no Brasil procurava treinar de Laser, em Ilhabela principalmente. A última vez que treinei de Laser no Rio foi na semana anterior à nossa viagem para Portugal, na segunda semana de junho.

Quem serão os seus principais adversários no Pan do Rio?
Scheidt: A grande surpresa é o argentino Julio Alsogaray, que tirou a vaga do experiente Diego Romero, meu velho adversário na Laser. Ele foi campeão do Troféu Princesa Sofia, na Espanha, e terceiro do Centro Sul-Americano. Além dele, o americano (Andrew Campbell), o chileno (Matías del Solar) e o canadense (Mike Leigh) prometem dificultar bastante.

A possibilidade de se tornar o primeiro tetracampeão pan-americano te deixa pressionado?
Scheidt: Na verdade, procuro não pensar muito nisso. Nos Jogos Olímpicos de Atenas, por exemplo, eu também tinha uma grande pressão pela oportunidade de me tornar o primeiro bicampeão olímpico depois do Adhemar Ferreira da Silva. Naquela oportunidade, deu certo. Tomara que eu possa vencer o Pan-Americano novamente.

O que você mais recorda da última edição do Pan, em Santo Domingo?
Scheidt: Lembro com muito carinho dessa competição, pois tive uma performance excelente, já que ganhei todas as dez regatas nos cinco primeiros dias do campeonato e sequer entrei na água no último dia. A pobreza do local chamou muito minha atenção, porém o povo era muito atencioso com os atletas. Também assisti ao mau humor do tenista chileno Marcelo Rios após o jogo da decisão contra o Fernando Meligeni. O Fininho perdia por 1 set a 0 e 5/4 no segundo set, com saque contra, mas não desistiu e conseguiu a virada histórica. Foi um momento memorável...

Quando você percebeu que tinha se tornado um atleta profissional?
Scheidt: Na verdade foi uma longa e árdua trajetória para me tornar um atleta profissional, o que não é fácil em se tratando de vela e Brasil, o país do futebol. É como uma construção, que você tem que por um tijolo sobre o outro, a cada dia, ordenadamente, com muita disciplina e dedicação. Eu considero que a campanha para os Jogos Olímpicos de Atlanta foi um marco, pois foi quando obtive o apoio de mais patrocinadores, com visão de longo prazo.

Quem mais te incentivou no esporte?
Scheidt: Minha família, em especial o meu pai. E atualmente, além da família, eu tenho um vínculo de gratidão muito forte com os meus patrocinadores - Banco do Brasil, Brasil Telecom, Medley, CNA Idiomas, Varig e Volvo -, que me incentivam a dar o meu melhor sempre, e eu sinto que tenho que corresponder a esse voto de confiança. Ah, sem contar o incentivo da vibração positiva da torcida da minha equipe, dos amigos, da namorada, que também são fundamentais.

Qual a diferença entre as classes Laser e Star?
Scheidt: Na Laser, velejo sozinho e preciso de um condicionamento físico excepcional. É por esse motivo que muitos velejadores deixam a Laser antes dos 30 anos. Na Star, além de velejar em dupla, o barco é muito maior, muito mais técnico. São duas formas muito diferentes de velejar. Tive de aprender a ser líder, pois na Laser sempre velejei sozinho, o que significa que quando eu resolvo dar um bordo, eu mesmo comando, ajo e executo. Na Star foi fundamental entender o timing do parceiro e a importância de uma boa comunicação. A dupla ideal é aquela que tem confiança, sinergia e respeito.

Por que a mudança de classe?
Scheidt: Foram 15 anos velejando de Laser. É a classe em que consolidei meu nome e minha imagem. Mas chegou a hora de mudar, por mais difícil que tenha sido. O ano passado foi excelente, de um crescimento muito grande e de resultados muito bons. Encontrei no Bruno Prada, meu parceiro na Star, um atleta motivado, dedicado e muito talentoso.

Com tantas vitórias conquistadas, o brasileiro prestigia o esporte?
Scheidt: Hoje a vela tornou-se um esporte bem visto pelos brasileiros pelos resultados que traz. É muito bom contar com a torcida das pessoas que vêm dizer palavras gentis de apoio, em especial de gente muito simples que me dá a maior força, querem sempre me oferecer um doce, uma lavagem do carro, um pescado, coisas que para mim possuem o maior valor. Acho que meus resultados contribuem para melhorar a auto-estima do brasileiro, tão carente de vitórias. Quando eu escuto o Hino Nacional e vejo a bandeira subindo lá no pódio, eu me sinto grato por poder compartilhar essa felicidade com todos os cidadãos brasileiros.

Como é a rivalidade entre a sua dupla e a do Torben Grael?
Scheidt: Admiro demais o Torben, que tem um talento e uma experiência fantásticos. Tenho muito o que aprender com ele, e por isso mesmo a nossa rivalidade se restringe às raias de competição, pois fora dela nós temos um relacionamento respeitoso e amigável.

Fonte: ZDL - Guto Francischini / www.boia1.com.br