Notícias

Francavilla entrega a tática do Sony / Handycam


    (15/12/07)  

A equipe Sony / Handycam, após uma grande temporada, se prepara para novos desafios e conquistas em 2008. Além da excelente organização e dedicação da tripulação um dos segredos do sucesso da equipe esteve nas decisões tomadas pelo tático Enrico Francavilla. Em entrevista o velejador paulista conta os segredos da função e traz importantes dicas, tanto para novos velejadores quanto para equipes graduadas.

Qual o papel do tático no barco?
Francavilla: Durante a velejada, o tático é quem decide o caminho a ser seguido na regata. Ele diz para onde vai o barco, entre as várias opções possíveis, desde a preparação para a largada até a chegada. Além disso, o tático é normalmente o responsável pelo atendimento às instruções de regata, para todas as regras de um campeonato: horários de largada, limites de tempo, opções de percurso, tudo o que diz respeito ao relacionamento do barco com a Comissão de Regatas e com a secretaria do campeonato. Outro papel importante do tático, e que tem uma relação muito grande com a definição do caminho da regata, é a aplicação das regras de direito de passagem entre os barcos. Ficam a cargo do tático, portanto, a chamada de um protesto e todos os procedimentos necessários para defesa perante a comissão, em caso de o barco ser envolvido em alguma situação de conflito com outros barcos.

O que um tático deve levar em consideração para tomar decisões durante uma regata?
Francavilla: Os principais elementos são o vento, a correnteza e a posição dos adversários. Mas há uma série de variáveis pra cada um destes pontos. A depender das condições de cada regata, um tem mais peso do que o outro. Se estamos em um estágio avançado do campeonato, as pontuações dos adversários já estão definidas e já sabemos em que posições podemos terminar na súmula e que combinações de resultado nos interessam. Então a influência do posicionamento da flotilha nas decisões táticas é enorme, porque temos de nos posicionar de modo a controlar os principais adversários. Podemos ser forçados a tomar um caminho que não seria o escolhido se levássemos em conta só o vento. O vento por sua vez tem duas variáveis principais: direção e intensidade. Muitas vezes, especialmente nas regatas com vento fraco, somos obrigados a andar em uma direção não tão boa, só para buscar o lugar onde tem maior intensidade de vento. Já no vento forte e constante, a direção é o que mais importa. Tudo sempre levando a correnteza em conta. Para sair de uma área com correnteza contrária, poderá valer a pena andar com direção negativa por um tempo. O que passa na cabeça do tático o tempo todo durante a regata nada mais é do que uma avaliação constante da relação entre o custo e o benefício de cada uma destas opções. Costumamos usar a expressão se pagar no barco. Ou seja, estamos sempre considerando se o caminho escolhido vai se pagar ou não.

Como é a comunicação do tático com os demais tripulantes?
Francavilla: A comunicação fica muito concentrada com o timoneiro e com o trimmer, responsável pela regulagem das velas. Há uma orientação geral de direção, que é do tático e que tem de ser combinada constantemente com a orientação mais específica do timoneiro e do trimmer. O tático pode pedir, por exemplo, que naquela perna o barco siga velejando o mais orçado possível. Ou, ao contrário, ainda no contravento, o tático pode pedir que o barco seja velejado mais solto, com mais velocidade. Nos dois casos, cabe ao timoneiro e ao trimmer o ajuste fino e um retorno ao tático sobre o desempenho. Nas pernas de popa isso fica ainda mais importante. O barco nunca veleja no rumo exato da bóia de sotavento porque o rendimento melhor é sempre com o vento entrando entre o través e a alheta do barco. Temos o ângulo ótimo pela fórmula e medição do barco, mas temos de fazer o ajuste fino no rumo. De popa o barco permite uma variação maior de ângulo. Então o tático opta por uma direção e vai obtendo retorno o tempo todo do pessoal que cuida da velocidade para ver se a opção vai se pagar ou não. Eu interajo o tempo todo no barco com o Ferrari (Marcos Ferrari, timoneiro), com o Felipe (Felipe Echenique, trimmer) e com o Arthur (Arthur Vasconcellos, trimmer) a este respeito.

E a navegação, é feita por quem? Como é a comunicação entre o tático e o navegador?
Francavilla: A navegação é feita pelo navegador, que no barco é o Vicente (Vicente Neto). Não dá para o tático cuidar da navegação, porque o navegador tem de olhar o tempo todo para a tela do computador e o tático tem de olhar para fora do barco. Em geral, o tático tem de interagir bastante com o navegador. Mas vai depender muito da regata. Nas regatas de percurso a navegação é fundamental. Aí a comunicação é constante. Eu e o Vicente nos reunimos antes da regata para estudar a meteorologia e traçar um plano inicial. Na velejada, ficamos o tempo todo monitorando o traçado do barco no mapa, avaliando o desempenho e testando a confirmação das condições meteorológicas previstas ou detectando alguma mudança importante que imponha uma revisão do nosso planejamento. Outro resultado importante da navegação a bordo é que o tático pode ter uma visão mais ampla do percurso. No canal de São Sebastião, por exemplo, onde corremos a Semana de Vela, a navegação ajuda muito neste sentido. Podemos ver se uma marca está mais próxima de um lado ou de outro do canal, qual o menor espaço para cruzarmos de um lado ao outro do canal, todos elementos importantíssimos para lidar com a correnteza que normalmente é contrária, muito forte no meio e menos forte nas extremidades da raia. Nas regatas com bóias (barla-sota), contudo, a navegação é menos importante. Marcamos a linha e as marcas do percurso no computador para termos maior segurança, mas a regata é feita quase o tempo todo no visual. Se escurece ou se o tempo fica muito ruim, corremos para o computador de novo. É por isso que o navegador sabe que tem de estar sempre pronto e com a informação atualizada porque pode ser demandando a qualquer momento.

Qual programa de navegação vocês usam? Como funciona?
Francavilla: Testamos alguns programas e optamos pelo Evolution. O programa permite a programação da regata com a inserção das coordenadas da raia e tem recursos muito avançados. O programa calcula a variação do vento e da correnteza. Com isso, indica no contravento, em tempo real, qual o bordo mais favorecido, qual a distância e o tempo até o objetivo. O mesmo no popa, com a indicação do jibe e as indicações de tempo e distância para aproximação da bóia de sotavento. O programa permite enxergar a raia na carta náutica e mostra o barco e sua direção o tempo todo. É muito visual, o que ajuda para uma consulta rápida durante a regata. Do barco como indicado na tela, saem retas que indicam o bordo em que o barco está seguindo e o que seria o bordo oposto. Essas retas mudam de cor para indicar se o bordo está positivo ou negativo, ou seja, se o barco está indo no rumo mais próximo da marca ou não de acordo com as condições da raia. No que seria o lay line dos dois bordos, o que o barco veleja e o oposto teórico, novas retas apontam para a marca, o que dá uma imagem parecida com um retângulo na frente do barco. Com isso sabemos o tempo todo se estamos ou não em uma opção favorecida. A indicação de maré e de vento é feita por setas que se movimentam o tempo todo, acompanhando as oscilações. O programa também permite a inserção da linha de largada e ajuda a verificar tempo de alcance da linha e a indicar quanto abaixo da linha está o barco. Outra coisa boa é que no final da regata podemos reproduzir os registros que o programa fez com o curso exato que o barco fez durante toda a regata. É um bom jeito de analisar a tática que fizemos.

Como é feita a comunicação entre o tático e os demais tripulantes?
Francavilla: Todos velejamos juntos no barco e o resultado de uma regata vem do conjunto da obra. Não adianta estar do lado certo da raia e errar nas manobras. Os barcos que velejam na ponta, todos erram muito pouco. O conjunto é o que importa. Em termos de comunicação é que fica mais restrito para evitar muita falação desnecessária no barco. Estes (timoneiro, trimmer e navegador) são os principais interlocutores do tático, a depender de cada momento na regata. Ocasionalmente, e aí vai também o estilo de cada um, peço para os tripulantes monitorarem alguma coisa na raia. Por exemplo: estamos optando pela direita, mas queremos manter um olho do outro lado da raia para ver se por ali surge algum sinal de mudança no comportamento do vento ou se entra alguma rajada mais definitiva. Então peço para alguns tripulantes ficarem de olho e me avisarem se virem alguma alteração na água ou na velocidade e direção dos barcos que estão ali posicionados. Eu posso então me concentrar no caminho da direita e mantenho ao mesmo tempo o olho do outro lado, para o caso de ser necessária alguma alteração tática. Não posso pedir isso aos que estão concentrados na velocidade. Normalmente o pessoal da proa me ajuda muito nisso. No barco o Dionis (Dionis Morganti, secretaria) e o Léo (Leonardo Patané, proeiro) estão sempre sendo demandados para monitorar a raia.

Com tanta comunicação, tem muito palpite da tripulação nas decisões táticas? Isso é bom ou atrapalha?
Francavilla: Palpite atrapalha. O que o tático precisa é de informação e não de sugestão. E há uma razão muito clara para isso. A tripulação está focada no andamento do barco e das manobras e o tático está focado no que está acontecendo na raia. Por isso mesmo é que o tático não pode fazer outra coisa além da tática, salvo uma função muito pontual em uma ou outra manobra. Esta divisão rigorosa das funções melhora muito o desempenho do barco. E em muitas tripulações ainda não entrosadas ou sem uma definição clara de divisão de tarefas há discussões sérias durante as regatas, o que só tira o foco de todos e diminui a motivação e o prazer que é correr uma regata. Eu converso muito com a tripulação quando estamos planejando a regata e até tenho o hábito de resumir para todos qual a idéia para a tática daquela regata, durante a preparação. Neste momento é até bom ouvir a opinião de todos. Mas quando começa a regata é diferente, porque o tático veleja em um tempo diferente do resto da tripulação.

O que você quer dizer com "um tempo diferente"?
Francavilla: É que o tático está sempre um lance na frente do que está o barco. Para os que gostam de música, há uma imagem muito boa para explicar isso que é a do maestro na regência de uma orquestra. Não quero fazer a comparação na função do tático com a do maestro, mas apenas na diferença de tempo entre o tático com a tripulação e o maestro com a orquestra. Quem acompanhar a regência de uma orquestra verá que os gestos do maestro vêm sempre um tempo antes da variação correspondente na música. Isso é porque a orquestra está tocando enquanto ele já está indicando o que vem em seguida. É a mesma coisa na tática. O barco está velejando enquanto o tático está olhando o que vai acontecer na frente. Se estamos na perna de popa com vela à direita e há um barco perto de nós, na paralela, com vela à direita o tático sabe que quando este barco manobrar ele virá de vela à esquerda, com preferência. E se a manobra é necessária para a aproximação da bóia, o tático tem de considerar o que vai fazer quando o barco vier: se vai passar por trás dele ou se vai acompanhar a manobra. Assim, em uma situação como esta, enquanto a tripulação está velejando com aquele barco de vela à direita, o tático já está, na cabeça dele, velejando com aquele barco se aproximando com preferência. É o único jeito de depois cantar a opção tática a tempo, sem um sobressalto que pode prejudicar a qualidade da manobra. Esta seqüência só pode estar no pensamento do tático e por isso é que fica muito difícil ajudar na tática para alguém que esteja concentrado em outra função.

Você sempre foi um velejador de monotipos. Como é a tática em barcos de oceano? É diferente?
Francavilla: Os princípios são exatamente os mesmos. Mas na execução da tática há grandes diferenças. A principal delas é de que no oceano os adversários são, normalmente, barcos com desempenhos diferentes. O que iguala os barcos é a correção do tempo. Assim, no tempo real, podemos estar fisicamente atrás de um barco, mas uma ou mais posições na frente do mesmo barco para a súmula da regata. Isso faz com que o tático tenha de estudar as medições dos adversários e levar isso em consideração. Podemos estar atrás de um barco e adotar uma tática conservadora, o que é inusitado se pensarmos em uma regata de monotipos. Ou seja, no oceano existe a possibilidade de marcarmos o adversário estando atrás dele. Podemos velejar apenas para evitar que o barco da frente abra mais tempo. O tático acaba por controlar a regata no cronômetro, marca a marca, baseando nisso as suas decisões em relação à flotilha. Também a diferença de tamanho dos barcos influi nas decisões para a largada. É preciso definir o plano para evitar, por exemplo, barcos maiores à barlavento. A posição de sotavento, que na orça é sempre mais confortável nos monotipos, pode ser muito ruim no oceano a depender da diferença de tamanho e velocidade dos dois barcos. E outra diferença importante é que no oceano a tática exige mais precisão, porque as manobras são mais caras em termos de tempo. O barco tem uma inércia muito grande e andamento é fundamental na regata toda. Por isso é que o tático tem de ser muito preciso em cada chamada de manobra para evitar movimentações desnecessárias que tirem velocidade do barco.

Em quais momentos da regata esta precisão é mais importante?
Francavilla: Em todos os momentos. Em especial, o momento do bordo para alcançar a bóia (lay-line) e o equivalente para o jibe no popa são fundamentais. No oceano velejamos com instrumentos e com o computador que nos ajudam quando a distância é muito grande ou quando não há luz natural, o que também diferencia a classe dos monotipos. Mas no fim das contas, a sensibilidade é fundamental.

Quais as suas recomendações para quem quer velejar nesta posição? Como desenvolver sensibilidade?
Francavilla: Treino é fundamental. Treino no barco e com o máximo de qualidade possível. Sempre levamos marcas no barco para simular momentos da regata e treinamos repetidas vezes a mesma manobra e a mesma aproximação. E, é claro, competir. A regata é o maior dos treinos. E fazer regatas de monotipo paralelamente a uma temporada de oceano é o melhor treino complementar que tem. Em resumo: treinar muito e competir muito.

Como tirar o melhor proveito de cada competição e de cada treino?
Francavilla: É preciso registrar o aprendizado. E isso se faz com um estudo ao final de cada regata e de cada treino e com a anotação dos pontos mais relevantes. Isso tem de ser feito sempre, qualquer que seja o resultado. Destas anotações sobre o que deu certo, o que poderia ter sido diferente e o que merece mais atenção da próxima vez, eu sempre separo as mais importantes e registro em um caderno que serve de consulta antes de cada campeonato. Além disso, é preciso estudar tática em geral e estudar cada raia. O mesmo método serve. Cada regata em uma raia pode gerar anotações preciosas sobre as condições naquele lugar com dado tipo de vento. Isso ajuda seja para a edição seguinte daquele campeonato, já que o tático terá o seu arquivo de consulta das condições daquela raia, que podem ser semelhantes, como também ajuda com o estudo de qualquer outra raia. O importante é treinar o estudo em si e sempre retomar estas anotações. Tudo com um só cuidado: anotações sobre a raia são só orientações e não devem ser necessariamente seguidas. Cada regata é uma regata.

Há bons livros para o estudo da tática de modo geral? Alguma indicação?
Francavilla: O que eu recomendo é o do Tom Whidden, escrito em conjunto com alguns outros autores (Champinoship Tactis: How Anyone Can Sail Faster, Smarter, and Win Races by Gary Jobson, Tom Whidden, Adam Loory, and Bill King (Hardcover - Jul 15, 1990).

Como foi essa temporada para o Handycam, na IMS 600?
Francavilla: A temporada foi excelente. Tivemos o patrocínio da Sony e velejamos em uma categoria extremamente competitiva, na faixa dos 40 pés. Ganhamos tudo o que disputamos com exceção da Semana de Vela da Ilha bela, em que fomos vice-campeões, perdendo para o Capim Canela, do Marcos Soares. Foi o primeiro ano de projeto, com parte da equipe ainda em formação e com a necessidade de adaptação ao barco nas próprias competições. Foi um ano de muito trabalho e muita luta.

Depois da Semana de Vela vocês ganharam o Circuito Rio, deixando para trás o Odoyá, com o Robert Scheidt na tática. E quem estava na premiação viu muita comemoração. Foi a maior realização do ano?
Francavilla: Comemoramos muito porque depois do vice-campeonato na Ilhabela, assumimos para nós mesmos o compromisso de vencer no Rio e cumprimos. O Odoyá não tinha só o Robert na tática, mas tinha o Claus (Claudio Bieckarck) no leme. Eu já velejei muito contra eles na classe Laser e na classe Lightning. Os dois são fora de série. Eu não preciso dizer que o Robert está hoje entre os melhores velejadores do mundo. O que ele fez na classe Star, junto com Bruno Prada este ano foi absolutamente impressionante. E o Claus é um dos velejadores mais competentes entre todos os que conheci. Tivemos outros adversários de altíssimo nível. O Ventaneiro, como Renato Cunha e o José Paulo Barcellos velejou muito bem no Rio e os barcos da escola naval, o Bijupirá especialmente, estão muito bem tripulados. Ficamos muito felizes em poder competir com estes barcos e, sem dúvida, ganhar no Rio foi uma grande realização para nós todos.

Para terminar, como fica o Handycam para 2008?
Francavilla: Melhor do que 2007. Já estamos com o barco novo e competiremos na IMS 500. Faremos alguns testes em algumas posições, mas a base da tripulação será a mesma. Também estamos trabalhando no barco e fazendo os ajustes necessários para o início da temporada. Vamos ter que aprender a velejar o barco e a categoria é extremamente difícil, o que é um desafio grande para nós. Mas podem contar com muita determinação. E aqui falo em nome da equipe toda.

Fonte: www.boia1.com.br